Por Wilson Alves-Bezerra
De tempos em tempos, a constatação da irrelevância – ou inexistência – da literatura brasileira nos assombra. Antonio Candido, no prefácio à “Formação da literatura brasileira” (1957), traz uma versão nacionalista dessa constatação: “A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas… Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós.” Passado meio século do chamamento indulgente de Candido, quando voltamos os olhos ao contexto atual, somos levados a nos perguntar novamente sobre a relevância das nossas letras contemporâneas.
De tempos em tempos, a constatação da irrelevância – ou inexistência – da literatura brasileira nos assombra. Antonio Candido, no prefácio à “Formação da literatura brasileira” (1957), traz uma versão nacionalista dessa constatação: “A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas… Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós.” Passado meio século do chamamento indulgente de Candido, quando voltamos os olhos ao contexto atual, somos levados a nos perguntar novamente sobre a relevância das nossas letras contemporâneas.
No final do ano de 2010, a editora francesa Gallimard publicou uma antologia de contos chamada “Les bonnes nouvelles de l´Amérique latine”, organizada pelo venezuelano Gustavo Guerrero e pelo peruano Fernando Iwasaki, com prefácio de Mario Vargas Llosa. Entre os 32 jovens contistas presentes na coletânea, não consta um só escritor brasileiro. Pois bem, para os organizadores ou o Brasil não pertence à América Latina, ou a literatura brasileira também lhes parece desimportante.
Recentemente, nas páginas virtuais de O Globo, a partir do debate entre os críticos Beatriz Resende e Alcir Pécora, iniciou-se uma discussão sobre a literatura brasileira contemporânea: Pécora pautou a discussão e declarou que o panorama nacional atual é irrelevante. Daquele debate e seus desdobramentos, ficam-me dois acontecimentos exemplares. O primeiro: após Pécora lançar a rede de sua provocação, alguns jovens escritores locais quiseram desmenti-lo – quando a mera existência de suas obras deveria bastar para tal. O sintomático é que não lançaram manifestos, não escreveram poemas, não argumentaram, não se calaram; lançaram gritos vãos, mostrando-se aludidos, mas sem meios para responder a provocação. O segundo acontecimento: dias depois, em sua página pessoal no facebook, Beatriz Resende reage: “Me enchi desses autores contemporâneos. Vou voltar para o velho Lima, Machado, Guimarães Rosa. Não tem erro e não chateiam ninguém. Se quiser ser moderna, falo de Sarah Kane e outros mortos que já sossegaram o ego”.
Pouco afeitos a debates, todos se desmobilizaram, exceto Pécora, que produziu o artigo “A hipótese da crise” (O Globo, 23 de abril 2011). Nele, lança a hipótese de que uma “inflação simbólica” seria a responsável, no mundo atual, pela irrelevância das letras: “É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido.”
Ora, a escrita de descarga presente em muitos blogs autorais, às vezes sem qualquer mediação entre escrita e leitura – tal como é retratado no filme “Nome próprio” (Murilo Salles, 2008) – não se confunde com a literatura como tal, é antes frágil tentativa de fazer-se relevante; é extensão, como o feliz nome do filme indica, do nome próprio de seu criador, e não se presta à transmissibilidade, à discussão ou ao diálogo com a tradição. Talvez seja a isso – sob a forma do blog ou do livro – que Pécora se refira. Mas esta escrita, é preciso que se diga, não depende do meio de difusão. Pode-se ser relevante ou descartável em papel ou hipertexto.
No caso brasileiro, alguns dos poetas mais relevantes das últimas décadas não tiveram uma trajetória midiática, antes foram absolutamente marginais em relação aos meios dominantes. Penso, por exemplo, em Hilda Hilst e Roberto Piva, que por anos circularam através das tiragens limitadas de Massao Ohno, produzidas e distribuídas artesanalmente. Depois ambos se exilaram, Piva no centro de São Paulo, em seus cursos órficos, para quem quisesse ouvi-lo; Hilda Hilst em sua Casa do Sol, nos arredores de Campinas, entre seus cachorros e seu uísque, mas também de portas abertas. Quando, nos anos 2000, entraram no circuito das letras nacionais, via Editora Globo, sob direção do próprio Pécora, a obra de ambos já estava concluída. Assim, vê-se como os meios disponíveis, a mídia, os blogs, as redes sociais nada têm a ver, a priori, com a criação literária.
Por outro lado, a escrita criativa tomada como ofício é a que considera – não ignora e não se verga perante – a tradição. E como já dizia Harold Bloom, mas muito antes dizia Oswald de Andrade, é preciso devorar, deglutir a tradição, para poder criar. Não basta reverenciá-la, e tampouco ser indulgente com ela. Neste sentido, não haveria o velho Lima Barreto e o velho Guimarães Rosa, mas uma tradição viva. E retomando um ensaio célebre de Jorge Luis Borges, “O escritor argentino e a tradição” (1932), nossa linhagem não precisa ser necessariamente a nacional pois, para ele, “devemos pensar que nosso patrimônio é o universo”.
A definição do filósofo italiano Giorgio Agamben, numa conferência de 2007, sobre o que é ser contemporâneo, permite que recoloquemos a discussão sobre o contemporâneo: “Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo” (p. 58-9).
Aos demais, aos que coincidem com as demandas de sua época, a estes não cabe o lugar de exceção. É preciso entender que o escritor que de fato seja relevante não está construindo sua obra para ser o último da longa fila da tradição, pois isso já seria morte em vida, como temos visto nos dias que correm. Quanto ao lugar, no Brasil, da literatura contemporânea que realmente importa, será preciso encontrá-lo. Para tanto, é preciso estar disponível à surpresa, e não ler as obras a partir de lugares calcificados.
WILSON ALVES-BEZERRA é crítico literário, professor da Universidade Federal de São Carlos