Livros

Título: O Vermelho das Hóstias Brancas

J. Matias de Oliveira
contos
Ano 2009
Edição Edições Bagaço / 122 p.
Formato 14 x 21 cm
encadernação lombada quadrada, orelhas
ISBN 978-85-373-0580-5
Vendas: j.matias@msn.com
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sobre o livro
RITUAIS DE DESSACRALIZAÇÃO
O vermelho das hóstias brancas, segundo livro de contos de João Matias de Oliveira, despreza os relatos de redenção e convida o leitor a refletir sobre a moralidade de personagens que lutam contra a pureza
Por Luis Henrique Cunha*
Em “Pureza e perigo”, a antropóloga inglesa Mary Douglas defende a tese de que, entre diferentes povos, os rituais de purificação – associados a formas de classificação que ordenam simbolicamente o mundo social e as relações dos seres humanos com a natureza – constituem a esfera do sagrado, responsável por incutir em nós um sentimento de conforto e segurança. As profanações à sacralidade são vivenciadas, assim, como ameaças severas; fontes de desorientação e de perigo iminente. Profano é justamente aquele lugar não purificado, ou seja, não submetido aos nossos esforços coletivos de ordenar o mundo e dar-lhe coerência. Em seu segundo livro de contos, o escritor cearense (radicado em Campina Grande) João Matias de Oliveira subverte desde o início as expectativas do leitor e no lugar de oferecer relatos de redenção, em que os personagens vivenciam seus ritos particulares de purificação, sendo, portanto, incorporados ao mundo (ou, em outros termos, reconhecidos), nos desafia com histórias sobre a dessacralização e a moralidade que ela possa conter.
O título, enganadoramente lírico, “O vermelho das hóstias brancas” (2009), já nos alerta que estamos sendo convidados a experimentar rituais de dessacralização. Não se trata, no entanto, de um livro sobre a religiosidade ou uma crítica à religião (ainda que a temática apareça em muitos dos contos). Não é, sequer, o exercício de um escritor iconoclasta, interessado em desconstruir os mitos, ironizá-los, invertê-los. A familiaridade do escritor com a literatura sociológica e antropológica deve, certamente, ter contribuído para que evitasse trilhar por estes caminhos fáceis. Mas é do ponto de vista rigorosamente literário que ele empreende sua investigação sobre a moralidade de personagens que investem contra a pureza, que maculam de vermelho nossas expectativas de ordem.
No conto que abre “O vermelho das hóstias brancas”, um condenado à pena de morte passa pelos “Ritos finais”. O primeiro parágrafo do conto (e do livro) dá o tom do que virá a seguir:
Sabe a condenada os tormentos do condenado. Lentamente molha os dedos na vasilha de água benta, esparge as gotas sobre ele, deixa escapar em cada gota a sujeira escondida sob as unhas de cada dedo. Puritana e enfermeira, cheia dos santos, pés de igreja, crucifixos, água sagrada. Os últimos micróbios cristãos na ante-sala da morte.
O ritual por excelência da purificação – por intermédio da água benta, sagrada – maculado pelas impurezas reveladas na mirada microscópica. Num nível de leitura mais profundo, purificar e tornar impuro não são duas coisas diferentes. Mas parte de um mesmo processo. Não são forças concorrentes. São a mesma coisa. Por outro lado, há a presença da morte, próxima, palpável, quase material, corporificada. Desde o início, portanto, e sem maior preparação do leitor, os temas que serão desenvolvidos ao longo do livro se apresentam de maneira clara.
O condenado à morte é tetraplégico e sabe-se que é um homicida, mas não se oferece muitos detalhes sobre o crime. Cometeu “pecado bruto”, é um “monstro de homem”. Juvenal (o condenado) matou um grupo de seminaristas em um ônibus jogado do alto de uma montanha. Nada sobre motivações.
As gotas da água benta caem-lhe pelo rosto, passam pelos olhos, misturam-se na profanação da víscera. A moça era a enfermeira que lhe cuidava na jaula imunda de três metros por quatro. Nada além da cadeira declinada, a tevê, a penteadeira, o crucifixo na parede.
A enfermeira-puritana (ou mais puritana que enfermeira) luta contra todas as impurezas que insistem em inundar o ambiente: a mosca, o suor, o cabelo desgrenhado e sujo e, finalmente, o gozo. Poderia ser uma história de amor e redenção. Mas não é, como logo perceberão os leitores.
Depois de “Ritos finais”, outros doze contos se sucedem. Em “Dádiva”, um soldado lida com uma ocupação de coelhos em pleno deserto, durante a guerra do golfo. Há um ritual de transubstanciação, completamente inesperado. A curiosidade algo mórbida de uma filha, em “Membro fantasma”.  “A dedo” parece realista e triste, até que as expectativas do leitor sejam completamente subvertidas ao final. Fetiches sexuais com um jesus-mendigo em “Via crucis”. Conversas filosóficas entre personagens com visões de mundo opostas dão o tom de “As formigas” e “Ibrahim”.
“O homem por trás dos óculos e do bigode” é um conto sobre seres insondáveis e expectativas frustradas. A descrição física de um dos personagens dá a indicação da desorganização de sua personalidade, como se a aparência material refletisse ruídos espirituais:
Foi em uma quarta-feira de cinzas. Estava Brígida da Paixão andando nos terminais de ônibus de Campina Grande quando deparou com a primeira epifania de sua vida: ele, em paletó e gravatas cinza e preto, misto de deputado, focinho de senador, arcada dentária de empresário. Um bigode relvoso cobria-lhe os lábios finos. Óculos negavam-lhe os olhos claros sob o rosto burocrático.
Duas percepções podem ser evocadas de sua descrição física: há um homem que não pode ser claramente definido, enquadrado; e este homem é todo ocultar-se. Quem é o homem por trás dos óculos e do bigode? A resposta a esta pergunta movimenta o conto e se desdobra em novas ocultações.
Há em “Sangra-hóstias” segredos de alcova, visões erótico-religiosas, transes místicos. É um conto complexo, cheio de beleza literária e de ardor sexual. Algumas das melhores imagens do livro estão aí incluídas:
Reza que não me agüento com esses seios saltando sobre o véu branco da pseudo-pseudo-pseudo-pureza, as coxas luminosas, de alvas, esperando o passeio matinal dos dez meninos brincantes, cinco em cada mão.
À hora da hóstia devo chamar-te a atenção. Morderei os lábios até dar o sangue que quero subtrair em mim agora. Você terá que olhar pra mim. Terá que viver em mim toda a dor do sangue me cobrindo a boca e dizendo viva, viva, viva. Carne viva!
A benção?! Ora a benção quando se vê o diabo vivo correndo solto, alegre em calcinha sem sutiã. Não era você. Era dentro de mim.
É o conto chave do ponto de vista da fixação metafórica do autor. Vermelho, sangue, sexo versus branco, puro, elevação. Imagens recorrentes em todos os contos aparecem como que concentradas nesse texto. Alguns podem achá-lo blasfemo, mas acredito que é na verdade o mais casto. Um ritual de dessacralização que acaba por constituir um novo sagrado.
“Linhas tortas” tem um cego que reside numa cova, mas que busca esclarecimento. “Senhora” reflete sobre o tempo e sobre as relações entre diferentes gerações de mulheres. “Verde” é uma história mítica que transcorre na caatinga. As reminiscências são a matéria-prima de “Minotauro sem labirinto”.
Há personagens puros, inocentes e há personagens transgressores, poluídos. E há o embate entre esses dois pólos em boa parte dos contos. Mas não são opostos. Os dois lados podem ser intercambiáveis, penetrados, fundidos, transformados. A morte aparece no mais das vezes como força alquímica, capaz de transformar matéria e espírito. E as oposições entre vermelho e branco vão construindo um universo sensorial saturado.
Destino e Liberdade
O conto “As formigas”, em muitos sentidos, sintetiza as preocupações do autor, suas fixações e é um bom indicador do caráter moral dos rituais de dessacralização. Nele, há dois níveis interconectados: um humano e outro natural. Nos dois casos, operam as forças da dessacralização. As formigas, obviamente vermelhas, desorganizam a mata, recortando-a em pedaços de folha. No nível humano, a violação da cova de um recém-nascido é o ponto de partida da revelação de práticas consideradas impuras. Nos dois casos, o que é percebido como uno é forçado a se multiplicar. Multiplicação que se dá pelo ato da vontade (de formigas e humanos) e não pelo acaso ou pela ação de forças impessoais. O desfecho do conto (melhor não adiantar, para não diluir seu impacto) oferece algum conforto, mas não se pode dizer que esse conforto vem da redenção, muito pelo contrário.
Há duas linhas principais para interpretamos a moralidade que guia personagens fixados em tornar impuro o que a tanto custo foi purificado por outros:
  1. O reconhecimento do destino como força desarticuladora. “Eu não vejo nada, também não prego nada”, diz um dos personagens. Ou ainda outro: “E por que um mundo para fora de si? Por que relegadas a voar sem rumo, desnorteado do vento, passível de confundir flor com pata de gato, água com veneno? Procurar o que, a quem e onde?
  2. A resistência como forma de liberdade. Diz um personagem, como se falasse diretamente a cada um de nós: “Levanta se há raízes, voa se tem asas, nunca jamais vi, por mais que sussurrasse ao pé de cada, uma de vós levantar. Por que sempre cativas? Por que assim plantadas, obscuramente plantadas para dentro de si?” Ou ainda, numa outra passagem do livro: “o corpo é preso,mas a alma flui”.
Quais os dilemas morais dos rituais de dessacralização? De um lado, a incapacidade de ser mobilizado pelos efeitos organizadores dos rituais de purificação. Se não posso ver a ordem do mundo, não preciso estar comprometido com ela. Se o mundo é dentro de nós, não preciso investir no que está fora. Aceitar o destino é recusar comprometer-se. De outro lado, dessacralizar é resistir, é propor outras possibilidades de vida. Os girassóis devem andar, não aceitar a ordem que lhes mantêm cativos. É também uma luta do espírito, fluído, contra a matéria, que aprisiona.
A força da sugestão
Do ponto de vista narrativo, chama a atenção principalmente a capacidade de sugestão exercitada por João Matias de Oliveira. “O vermelho das hóstias brancas” é um livro que se insinua, mas que resiste em revelar-se de uma vez, por inteiro. O autor busca criar climas com poucas palavras, ou pela negação das palavras. Em cada palavra dita, há outra palavra negada. Seus personagens interagem em situações limites, definitivas, mas muito mais sentimos isso do que sabemos racionalmente.  Há sempre uma tentativa de desorientar o leitor. A leitura da obra é, assim, também um ritual contra o sagrado. O sagrado como aquele lugar de conforto, de segurança.
“O vermelho das hóstias brancas” é o livro de um autor em processo de amadurecimento, que demonstra grande potencial, mas que também apresenta algumas fragilidades. A unidade (e relevância) temática e a diversidade de formas narrativas chamam a atenção para as inegáveis qualidades do livro. Mas o uso da linguagem, em alguns momentos, distancia o leitor e, me parece, pode ser um entrave à recepção do livro entre os mais jovens. Apesar de ter apenas 23 anos, João Matias de Oliveira escreve muitas vezes como um venerável senhor. Não exercita a fala da sua geração, não explora suas qualidades expressivas, fazendo com que o narrador, em suas múltiplas facetas, pareça antiquado e até mesmo artificial.
A literatura de João Matias de Oliveira tenta agarrar temas universais, ainda que esses temas possam ser clivados pelas experiências históricas de personagens “reais” em vidas que parecem irreais. A intenção do autor parece ser a de trabalhar nas fronteiras entre realidade e fantasia, embaralhando esses dois universos, numa chave que desloca o misticismo para sua materialidade. Eventos trágicos da vida cotidiana são reelaborados para que se enfatize os aspectos míticos e místicos. Se o livro pode parecer a alguns como anti-religioso, não é certamente anti-religioso no sentido panfletário. Ao mesmo tempo que fragmenta a experiência religiosa, acaba por revelar formas mais materiais de transcendência. Se não temos aqui redenção, há a literatura e sua capacidade de nos fazer refletir.
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* Luis Henrique Cunha, sociólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFCG. Resenha publicada na revista Blecaute de Literatura e Artes, No. 4, Ano I.
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Título: Aos olhos de Outro
J. Matias de Oliveira
contos/ crônicas
Ano 2007
Edição do autor (1ª)/ 157 p.
Formato 14 x 21 cm
encadernação lombada quadrada, orelhas, laminação fosca na capa
ISBN não tem

sobre o livro
Um olhar sobre os outros: narrativas sociopolíticas de João Matias de Oliveira.
“Noto certa indignação, uma revolta diante do quadro social, político e econômico no Brasil atual; que se revela em todo o discurso sensível e rebelde do ficcionista. Suas palavras são de ira, de fúria e de dor em um quadro de desigualdades e injustiças em nosso país.”
O livro Aos Olhos de Outro (Editora Agenda, 2007), do jovem escritor cearense João Matias de Oliveira é uma bela coletânea de contos e crônicas de forte teor político e social. Nascido em Juazeiro do Norte o estreante no mundo das letras é residente em Campina Grande já a cerca de dois anos, onde cursa Jornalismo e Ciências Sociais nas principais instituições universitárias da cidade, e já se insere como um dos mais destacados contistas da região, ao lado, por exemplo, do pernambucano Cristiano Aguiar.
O livro é dividido em três partes. São elas: Estórias de Aprendiz, Democratas por Decreto (intervalo Proso-político) e por ultimo Aprendiz de Estórias. As narrativas trazem um interessante caráter político e uma comovente preocupação social. Seus personagens, vivos em seu teor natural e espontâneo, são portadores de uma inegável critica social as instituições, sejam elas familiares, governamentais, entre outras, em uma lógica quase sempre de um questionamento ético das relações sociais no cotidiano. Os textos entendidos aqui como um conjunto único e dinâmico, apesar de trazerem dois gêneros diferentes, o conto e a crônica, proporcionam aos seus leitores um panorama significativo dos dilemas e conflitos da existência humana.
Há um teor levemente Foucaultiano nas narrativas do nosso autor, mesmo que inconsciente, – o que coloca os textos em uma escala extremamente atual de abordagem, devido principalmente as suas preocupações sociais e os seus objetivos humanísticos de reflexão. Estranho é perceber o caminho seguído por esse jovem escritor, em uma época de um ridículo descomprometimento político dentro do mundo literário. É interessante notarmos as escolhas realizadas por João Matias: o mendigo, o marginal, o louco, são os seus personagens principais, sendo sempre tratados em uma perspectiva lucidamente crítica e responsavelmente politizada.
Este teor Foucaultiano que me referi a cima esta relacionada às redes de instituições que nos domina dentro do organismo social; que nos reprime diante dos fatos e acontecimentos do dia a dia. São os abusos, entre elas, as agressões físicas e morais das lideranças e representantes do poder; o uso da força e da violência, que toca quase sempre no limiar da barbárie. Os protagonistas de João Matias são quase sempre caracterizados como ingénuos, e sujeitos a indignação perante as forças maléficas destas instituições citadas, que são corrompidas pela insensibilidade e o preconceito macabro de seus representantes. Há sempre vitimas, e estas são inegavelmente os pobres e os ditos marginais morais. Esta visão se aproxima muito do maniqueísmo Balzaquiano, pois a imensa maioria das histórias do escritor francês termina com a vitória dos maus, dos mais fortes e mais espertos, e a consequente derrota dos personagens bons e honestos. Noto em certo sentido esta tendência no jovem escritor cearense.
As temáticas são recorrentes: loucura, família, governo, igreja, partido político. Os ambientes são geralmente locais de luta, de conflito, entre os sujeitos sociais nos espaços dos micropoderes em uma lógica de divagações em sentidos espaciais urbanos. Os personagens passeiam límpidos por universos de conflitos. Noto certa indignação, uma revolta diante do quadro social, político e econômico no Brasil atual; que se revela em todo o discurso sensível e rebelde do ficcionista. Suas palavras são de ira, de fúria e de dor em um quadro de desigualdades e injustiças em nosso país.
Quanto à questão estética, a qualidade máxima de João Matias está contida inegavelmente em seus diálogos primorosos. O autor os utiliza deste recuso magistralmente, em uma polifonia bastante interessante em meios aos seus personagens. Destaque para a crônica O Senador Biônico e na conto A Sombra e o Sol. Há uma sensibilidade em cada corte do texto, o que demonstra a tendência para a ficção, ou melhor, para a curta ficção. Os desfechos são também muito bem construídos, mesmo reconhecendo quanto ao caráter formal certo tradicionalismo narrativo, que em nada toca no experimentalismo tão comum dos dias atuais. Os personagens são bem trabalhados, apesar do maniqueísmo já referido a cima, e trazem um fator interessante muitas vezes: há um enigma constituído na escolha dos nomes dos personagens. São exemplos: o personagem Sarmento (Sargento, devido o seu rigor na organização de sua família), no conto Entre a Sombra e o Sol, e Emergarda (Esmeralda, no sentido de beleza diante da marginalidade e da pobreza) no conto A Morte do Animal. Este aspecto é bastante comum na literatura brasileira, destaque para os ficcionistas José de Alencar e Guimarães Rosa. Quem não se lembra dos personagens Diva e Diadorim.
Algo que me chamou também muita atenção nos textos coletados, foi o numero significativo e excessivo de palavras pouco utilizadas no vocabulário, inclusive literário. São exemplos: enpenachada, sorumbático, enxotes, amainou, entre outros. Essa falha eu diria, faz parte daquilo que eu chamo de síndrome de Rui Barbosa, uma espécie de doença literária não tão comum, porém perceptível em alguns jovens escritores. O escritor dedica-se então extraordinariamente a leitura de vernáculos de dicionários influenciando assim seus escritos com muitos termos não muito comuns no dia a dia, e muitas vezes indiferentes às práticas literárias.
Uma reflexão interessante sobre a escrita de João Matias foi colocada na própria orelha do livro nas palavras da professora Robéria Nascimento: “Distanciadas de qualquer intenção de universalidade, as narrativas aqui registradas buscam um sentido atemporal e uma habilidade criativa que ultrapassam o “o profissionalismo” do ato de escrever, apontando a direção do novo e inventando desejos de não serem lidas como falsas ou vazias. O leitor perspicaz e atento perceberá uma vontade de coerência, um entusiasmo de vanguarda, um pensamento aberto, qualidades que formatam o perfil dos jornalistas do futuro que hoje se sonha construir”. As palavras da ilustre professora enfatizam justamente a clara humanidade do autor e o desejo utópico de através da literatura transformar os sentidos das relações sociais no cotidiano.
João Matias, sendo assim, com seu Aos Olhos de Outro, apesar de alguns erros, comuns naqueles estreantes no campo das letras, vislumbra as disparidades do caos do mundo através de seus personagens. Nada mais lindo do que o sonho de transformar, através da literatura o nosso universo tão complicado de relações conflituosas. E é isso que nos deixa de exemplo esse nosso jovem escritor, uma esperança de mudança, de humanidade sensível em nossas cabeças.
Bruno Gaudêncio, poeta e ensaísta.
Resenha retirada do blog do autor
na orelha
Os textos reunidos nesta coletânea, em forma de crônicas ou contos, apresentam-se para além das classificações funcionais, uma vez que os fatos narrados que deles subjazem são expressões vivas, indisciplinadas, criativas, situando-se à margem da impessoalidade do jornalismo técnico-acadêmico. Num exercício dinâmico de comunicação, observação e intuição o autor demonstra que escrever é um ato meio clandestino, que nos permite escapar para um canto que elegemos, esquecendo o “mundo exterior” para abrir os parênteses do imaginário e reconstruir o mundo como tal o percebemos. Assim, sugere que o corpo fala, a alma lê e as relações com o tato, com o olhar, com o ouvido estabelecem leituras em movimento: porque as palavras também ressoam, falam, gritam, cantam, choram, calam, sorriem… Exatamente como as pessoas, como a vida.
Distanciadas de qualquer intenção de universalidade, as narrativas aqui registradas buscam um sentido atemporal e uma habilidade criativa que ultrapassam o “profissionalismo” do ato de escrever, apontando a direção do novo e inventando desejos de não serem lidas como falsas ou vazias. O leitor perspicaz e atento perceberá uma vontade de coerência, um entusiasmo de vanguarda, um pensamento aberto, qualidades que formatam o perfil dos jornalistas do futuro que hoje se sonha construir.
Desse modo, este livro foi tecido mediante uma pluralidade de vozes, que ecoam de diversos personagens, para nos provocar possíveis questões: o que é a experiência de escrever? O que é escrever enquanto experiência? Apostando na ousadia, reescrevendo o cotidiano, os textos nos convidam a refletir, tal como nos sugere o dito do Jorge Larrosa: “O homem se diz ao se desdizer; no gesto de escrever e de apagar o que já foi dito; ou de dizer o que já disseram… Tudo para que a página continue em branco e novas palavras se façam, novos projetos se desenhem. Informa a ti mesmo a tua história e não sejas nunca de tal forma que não possas ser de outra maneira”.
Robéria Nádia Nascimento
Doutora em Educação e Literatura
na contracapa
“ninguém chegará pela porta aberta
Para escutar a fala das paredes
Onde os retratos velam pelos mortos”

Francisco Carvalho
Ah! Esta crua ansiedade, esta angústia típica de quem sufocado espera o gênesis! Berço pronto, fraldas postas no criado mudo e a espera dos primeiros vagidos do bebê ante a primeira luz deste mundo. Assim se posta o nosso João Matias no aguardo do seu primeiro rebento e, mais que tudo, como ele se apresentará “Aos olhos de outro”.
Eis que o menino nasceu, trazendo consigo as expectativas e esperanças da sua geração. Alguns traços políticos numa época em que Ética e Estética passaram a ser palavras díspares, como se arrancadas de tempos e dicionários diferentes. Mas é exatamente nas entrelinhas, quando o autor brinca com as delicadas emoções humanas, que seu estilo mostra-se mais conciso e exuberante. Estudante de jornalismo, o nosso João Matias traz consigo o objetivismo da sua profissão, mas aprendeu o exercício da espeologia, buscando mergulhar nas grutas mais sombrias da alma do homem. Exemplo disso é o seu conto Código Morse, em que associa as grandes guerras mundiais às nossas comezinhas batalhas domésticas. João revela-se, neste primeiro livro, com sua sensibilidade e técnica, um promissor contista de sua geração. Ele sabe invadir as portas abertas, escutar pacientemente a fala das paredes e revelar as fotografias que velam pelos vivos e pelos mortos.
J. Flávio Vieira
Médico, escritor e editor do Simbora pra Matozinho


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